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O receio de
decepcionar as outras pessoas pode tornar-se um empecilho em nossa vida.
Este medo faz com que cobremos de nós mesmos uma perfeição impossível de
ser alcançada.
Porém, o que geralmente não pensamos é que, nossa primeira preocupação
deveria ser em não decepcionar a nós mesmos. Quantas vezes acabamos não
cumprindo os objetivos que nos havíamos imposto ou nos desviamos de
nossas metas por causa de outras pessoas?
Nesse caso, passamos por cima de nossos próprios sentimentos e deixamos
de lado nossos sonhos, como se eles não tivessem importância. Abrir mão
de si e daquilo que deseja em função do marido, dos filhos, do namorado
é uma postura bastante comum para muitas pessoas.
Ao fazerem isso, desvalorizam-se e agem como se os sonhos e objetivos
que cultivam valessem menos ou pudessem esperar para um dia, quem sabe,
serem concretizados. Visto que o futuro é apenas uma hipótese e que
somente o momento presente existe, devemos refletir seriamente sobre o
hábito de protelar a conquista de nossos anseios mais profundos. Muitas
vezes a vida poderá não nos dar uma segunda chance.
Essa não é, em absoluto, uma postura egoísta ou individualista diante da
vida. Trata-se isso sim, de não nos anularmos em função seja de quem
for, para que um dia não cobremos dos demais a não realização de nossos
sonhos e nossa conseqüente frustração.
Manter sempre presente em nossa mente quais as metas que desejamos
alcançar ou o que necessitamos para sermos felizes, é uma forma eficaz
de não abdicarmos de nossa vida para satisfação dos demais.
É importante encontrar o ponto de equilíbrio entre nossas necessidades e
as daqueles com os quais convivemos, sem termos que sempre abrir mão ou
fazer concessões quanto a nossas próprias escolhas.
Não me lembro em que momento, percebi que viver deveria ser uma
permanente reinvenção de nós mesmos – para não morrermos soterrados na
poeira da banalidade embora pareça que ainda estamos vivos.
...Para reinventar-se é preciso pensar: isso aprendi muito cedo.
Apalpar, no nevoeiro de quem somos, algo que pareça uma essência, isso,
mais ou menos, sou eu. Isso é o que eu queria ser, acredito ser, quero
me tornar ou já fui. Muita inquietação por baixo das águas do cotidiano.
Mais cômodo seria ficar com o travesseiro sobre a cabeça e adotar o lema
reconfortante: “Parar
para pensar, nem pensar”!
...Pensar pede audácia, pois refletir é transgredir a ordem do
superficial que nos pressiona tanto.
...Mas pensar não é apenas a ameaça de enfrentar a alma no espelho: é
sair para as varandas de si mesmo e olhar em torno, e quem sabe
finalmente respirar.
Compreender: somos inquilinos de algo bem maior do que o nosso pequeno
segredo individual. É o poderoso ciclo da existência. Nele todos os
desastres e toda a beleza têm significado como fases de um processo.
Se nos escondermos num canto escuro abafando nossos questionamentos, não
escutaremos o rumor do vento nas árvores do mundo. Nem compreenderemos
que o prato das inevitáveis perdas pode pesar menos do que o dos
possíveis ganhos.
Os ganhos ou os danos dependem da perspectiva e possibilidades de quem
vai tecendo a sua história. O mundo em si não tem sentido sem o nosso
olhar que lhe atribui identidade, sem o nosso pensamento que lhe confere
alguma ordem.
Viver, como talvez morrer, é recriar-se: a vida não está aí apenas para
ser suportada nem vivida, mas elaborada. Eventualmente re-programada.
Conscientemente executada. Muitas vezes, ousada.
...Questionar o que nos é imposto, sem rebeldias insensatas, mas sem
demasiada sensatez. Saborear o bom, mas aqui e ali enfrentar o ruim.
Suportar sem se submeter, aceitar sem se humilhar, entregar-se sem
renunciar a si mesmo e à possível dignidade.
Sonhar, porque se desistimos disso, apaga-se a última claridade e nada
mais valerá a pena. Escapar, na liberdade do pensamento, desse espírito
de manada que trabalha obstinadamente para nos enquadrar, seja lá no que
for.
E que o mínimo que a gente faça seja, a cada momento, o melhor que
afinal se conseguiu fazer. Lya Luft – do livro “Pensar
é Transgredir”
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